São sete e dez, ninguém encontra o outro sapato, o bebé está a chorar e o seu filho de oito anos anuncia que não vai à escola. Sente a sua própria voz a ficar mais cortante e mais rápida e, ao fim de um minuto, a casa inteira está aos gritos. A maioria dos pais conhece bem esta espiral. O que é menos óbvio é que também funciona ao contrário. Quando uma pessoa na sala fica mais serena, as outras tendem a seguir, e muitas vezes essa pessoa tem de ser você.
Porque é importante
A autorregulação, a capacidade de gerir sentimentos, atenção e impulsos, não é algo com que as crianças nasçam. Desenvolve-se lentamente ao longo de duas décadas, e cresce primeiro através das relações. Os investigadores chamam-lhe corregulação: um adulto calmo e atento ajuda o corpo e a mente stressados da criança a acalmar, uma e outra vez, até que a criança aprende gradualmente a fazê-lo sozinha. Um documento de orientação prática de Katie Rosanbalm e Desiree Murray para a Administration for Children and Families dos Estados Unidos descreve a corregulação como algo de que as crianças precisam em todas as idades, desde a primeira infância até ao início da idade adulta, mudando de forma à medida que crescem: embalar e acalmar nos bebés, orientação e estrutura nas crianças em idade escolar, e uma caixa de ressonância calma para os adolescentes.
O stress passa de pessoa para pessoa de forma surpreendentemente direta. Num estudo, a psicóloga Wendy Berry Mendes e colegas submeteram mães a uma tarefa stressante e depois voltaram a juntá-las aos seus bebés. O corpo dos bebés começou a mostrar respostas de stress que acompanhavam as das mães, apesar de os bebés não terem participado na tarefa. As crianças mais velhas estão igualmente sintonizadas; leem o nosso tom, a nossa pressa e a nossa cara muito antes de processarem as nossas palavras.
É por isso que um "acalma-te!" gritado do outro lado da sala quase nunca resulta. Uma criança inundada não consegue encontrar a calma por ordem. Consegue, no entanto, encontrá-la ao lado de alguém que já tem alguma para emprestar. As relações de apoio com adultos são, como diz o Center on the Developing Child da Universidade de Harvard, a forma como as crianças constroem as competências que sustentam o autocontrolo.
Experimente hoje
- Regule-se primeiro a si. Antes de falar, expire devagar, mais demoradamente do que inspira. Descontraia os ombros e solte o maxilar. Não há mal nenhum em dizê-lo em voz alta: "Espera, primeiro vou respirar."
- Abrande tudo. Baixe a voz, suavize a expressão, mova-se mais devagar. Se puder, fique fisicamente mais baixo do que o seu filho, sentando-se ou ajoelhando-se. Um corpo calmo transmite segurança mais depressa do que palavras tranquilizadoras.
- Fale menos. No meio de uma tempestade, as explicações longas soam a ruído. Frases curtas e firmes funcionam melhor: "Estou aqui. Estás seguro. Vamos resolver isto."
- Empreste o seu ritmo. Os bebés acalmam com o embalo, o balanço e uma mão nas costas. As crianças mais novas acalmam muitas vezes quando respira devagar ao lado delas. Os mais velhos e os adolescentes podem preferir um passeio, uma volta de carro ou ficarem sentados lado a lado enquanto fazem os dois alguma coisa banal.
- Conheça os seus próprios sinais de alarme. Repare no que acontece em si mesmo antes de explodir: a cara a aquecer, o peito apertado, uma certa frase que diz sempre. Escolha um pequeno reinício para esse momento, como beber um copo de água ao lava-loiça, ou passar a vez a outro adulto, se houver algum por perto.
- Reabasteça-se depois. Corregular uma criança em sofrimento é esgotante. Quando as coisas acalmarem, faça uma pequena coisa pelo seu próprio sistema nervoso: um chá bebido sentado, uns minutos lá fora, uma mensagem a um amigo.
Na prática
O Paulo é pai sozinho, e são quase dez da noite quando a filha de catorze anos, a Mariana, entra de rompante na cozinha. Uma amiga publicou uma coisa no grupo da turma, o trabalho de História é para entregar amanhã e ela está a tremer. "A minha vida está toda estragada e tu nem queres saber!"
O Paulo sente a vontade conhecida de dizer "É só um grupo de mensagens" e mandá-la para a cama. Em vez disso, pousa o pano da loiça, expira devagar e puxa-lhe uma cadeira. Senta-se também e fala mais baixo do que ela. "Parece uma noite horrível. O trabalho e o grupo, tudo ao mesmo tempo." Ela continua a falar depressa. Ele não discute nem dá conselhos; limita-se a acenar, mantém a respiração lenta e empurra um copo de água na direção dela. Ao fim de uns minutos, a voz dela baixa até ao tom da dele.
"Queres ajuda com o plano do trabalho, ou preferes deixar a questão do grupo para amanhã de manhã?", pergunta ele. Ela escolhe o trabalho. Nada no grupo da turma ficou resolvido naquela noite. Mas a Mariana foi deitar-se mais calma do que tinha chegado, porque o pai se manteve sereno tempo suficiente para ela encontrar o seu próprio equilíbrio.
Por idades
- 0–2 anos: Os bebés dependem quase por completo da sua regulação. Pegue-lhe ao colo, embale-o, cantarole e mantenha a sua própria respiração lenta. Uma rotina calma e previsível também é corregulação.
- 3–6 anos: Baixe-se até ao nível dele, use uma voz baixa e palavras simples, e ofereça o colo ou a mão. Respirem devagar juntos, talvez "a cheirar a flor e a soprar a vela".
- 7–11 anos: Fique por perto e calmo enquanto ele fala ou chora, e depois ajude-o a planear: "O que é que te ajudava agora?" A sua calma torna possível que ele pense.
- 12–16 anos: Os adolescentes continuam a pedir emprestada a sua serenidade, mesmo quando o afastam. Mantenha-se imperturbável, evite subir ao volume deles e ofereça companhia sem pressão: "Estou na cozinha, se precisares de mim."
Quando custa
"Não consigo estar calmo quando ele me está a gritar." Não precisa de se sentir calmo; precisa de estar um pouco mais calmo do que o seu filho, e de agir como tal. Respirar devagar, baixar a voz e sentar-se enviam também sinais de calma ao seu próprio corpo. Em certos dias, uma versão ligeiramente menos stressada de si chega.
"Já perdi a cabeça. É tarde demais?" Não. Pare, respire e recomece de onde está: "Levantei a voz. Vou tentar outra vez, com mais calma." Voltar à calma depois de a perder ensina ao seu filho algo tão valioso como nunca a perder.
"O meu filho adolescente diz que a minha voz calma é irritante." Os adolescentes são alérgicos a tudo o que soe a guião. Mantenha a sua voz normal, apenas mais lenta e mais suave, e faça alguma coisa banal ao lado dele em vez de se pôr à frente dele como um terapeuta. Se perceber que raramente consegue sentir-se calmo, seja qual for o dia, isso merece ser levado a sério, e falar com o seu médico ou com um psicólogo sobre o seu próprio stress é um bom passo.
Erros comuns
- Ordenar a calma em vez de a oferecer. "Acalma-te!" pede à criança a única coisa que ela não consegue fazer naquele momento. Mostre calma primeiro; peça-a depois, se chegar a ser preciso.
- Precipitar-se a resolver o problema. As soluções oferecidas enquanto a criança está inundada muitas vezes fazem ricochete. Acalme primeiro o corpo, depois pensem juntos.
- Andar de depósito vazio. Ninguém consegue emprestar a calma que não tem. O sono, as pausas e o apoio não são luxos; fazem parte do que lhe permite corregular bem.
Numa frase
As crianças aprendem a acalmar-se pedindo emprestada a sua calma vezes sem conta, por isso o mais poderoso que pode fazer numa tempestade é serenar-se primeiro a si.
Fontes
- Rosanbalm, K. D., e Murray, D. W., "Caregiver Co-regulation Across Development: A Practice Brief" (OPRE Brief, US Administration for Children and Families, 2017)
- Waters, S. F., West, T. V., e Mendes, W. B., "Stress Contagion: Physiological Covariation Between Mothers and Infants" (Psychological Science, 2014)
- Center on the Developing Child at Harvard University (Centro para a Criança em Desenvolvimento da Universidade de Harvard), "Executive Function and Self-Regulation" (Key Concepts)