Se escrevesse todas as regras que espera que os seus filhos cumpram, a lista ocuparia provavelmente várias páginas. Nada de pés no sofá, nada de telemóveis à mesa, nada de gritos, trata bem a tua irmã, pendura o casaco, diz obrigado, não interrompas, não batas com a porta. A maior parte destas regras nunca chega a ser dita; aparece no momento, normalmente depois de ter sido quebrada. As crianças não conseguem seguir um regulamento que nunca viram, e deixam de ouvir um que não para de crescer.
Porque é importante
As regras funcionam quando as crianças as conseguem lembrar, compreender e prever o que acontece a seguir. Com uma lista longa, isso é difícil. As crianças pequenas só conseguem ter presentes poucas instruções de cada vez, e até os adolescentes tendem a desvalorizar regras que parecem intermináveis ou arbitrárias. Uma lista curta mostra o que realmente importa, o que dá mais peso a cada regra.
A forma como a regra é dita também conta. "Não corras" nomeia precisamente a ação que quer travar e deixa à criança o trabalho de descobrir a alternativa. "Dentro de casa anda-se" dá-lhe uma imagem clara do que fazer em vez disso. Programas de formação parental como os desenvolvidos por Alan Kazdin, em Yale, apoiam-se muito nesta ideia: dizer às crianças o comportamento que se quer, tornar fácil o sucesso e reparar quando acontece. As orientações dos CDC para pais de crianças pequenas vão no mesmo sentido e recomendam poucas regras, claras e concretas, formuladas pela positiva e aplicadas com coerência.
É na coerência que a maior parte das regras falha sem se dar por isso. Uma regra aplicada na segunda-feira, ignorada na terça e gritada na quarta ensina às crianças que a verdadeira regra é "ver de que humor está o pai ou a mãe". Menos regras tornam a coerência possível, porque é realista cumprir três coisas até ao fim. Trinta, não.
Experimente hoje
- Escolha as suas três a cinco. Pergunte a si próprio que comportamentos, se acontecessem com regularidade, mais mudariam o dia a dia. Normalmente dizem respeito à segurança, ao respeito pelas pessoas e a algumas regras básicas da casa. Tudo o resto passa a ser uma preferência, não uma regra.
- Reescreva cada regra como um "fazer". "Não se bate" passa a "Aqui tratamo-nos com mãos gentis". "Não deixes as tuas coisas por todo o lado" passa a "Mochilas e sapatos ficam junto à porta". "Não se grita" passa a "Dentro de casa falamos baixo". As regras pela positiva são mais fáceis de imaginar e mais fáceis de elogiar.
- Torne-as concretas ao ponto de se verem. "Ser respeitador" significa coisas diferentes para pessoas diferentes. "Batemos à porta antes de abrir uma porta fechada" pode ser observado, cumprido e reconhecido.
- Envolva os seus filhos. As crianças empenham-se muito mais em regras que ajudaram a criar. Pergunte: "O que faria a nossa casa sentir-se mais tranquila?" Até uma criança de cinco anos consegue sugerir algo útil, e um adolescente colabora mais quando a sua opinião mudou a formulação.
- Afixe-as e pratique. Escreva a lista num sítio visível, com desenhos para os mais pequenos. Ensaiem quando todos estão calmos: "Mostra-me como são as mãos gentis." Depois, repare quando as regras são cumpridas: "Puseste a mochila junto à porta sem ninguém te pedir."
- Decida antecipadamente o que acontece quando uma regra é quebrada. Mantenha a resposta calma e ligada à regra, e aplique-a sempre da mesma forma. Reações de surpresa são mais difíceis de aceitar do que reações previsíveis.
Na prática
É domingo à noite, e a Inês e o companheiro, o Rui, convocaram uma reunião de família à volta de uma pizza encomendada. O filho da Inês, o Tomás, tem dez anos; a filha do Rui, a Leonor, de seis, fica com eles na maior parte dos fins de semana. Desde que as duas famílias passaram a viver juntas, as regras têm sido uma confusão: na antiga casa do Tomás eram outras, e a Leonor está sempre a perguntar: "Isso aqui é regra?"
"Queremos ter só algumas regras e queremos a vossa ajuda", diz a Inês. O Rui lê o rascunho numa folha de papel: "Um: as nossas mãos e as nossas palavras são gentis. Dois: batemos às portas fechadas. Três: ao jantar, os ecrãs vão para o cesto." O Tomás franze a testa. "Isso inclui os vossos telemóveis?" O Rui ri-se. "É justo. Sim, os nossos também." A Leonor quer acrescentar "Todos têm a sua vez de escolher o filme." Escrevem-na como regra número quatro. O Tomás faz os desenhos para a Leonor, que ainda não sabe ler.
Duas semanas depois, a Leonor continua a lembrar o Rui, todas as noites, de pôr o telemóvel no cesto, e o Tomás bate à porta antes de entrar no quarto dela. Nem todos os dias correm bem, mas quando alguma coisa corre mal, todos sabem qual é a regra, e a conversa é mais curta. Uma lista clara, combinada em conjunto, faz mais do que qualquer quantidade de sermões.
Por idades
- 0–2 anos: Os bebés e as crianças pequenas precisam mais de rotinas e de um ambiente seguro do que de regras. Torne a casa segura naquilo que puder, redirecione com suavidade e use uma ou duas frases curtas, sempre as mesmas: "Mãos gentis."
- 3–6 anos: Mantenha a lista em três ou quatro regras, com desenhos. Ensaie através da brincadeira e elogie de forma concreta quando uma regra é cumprida. Conte com ter de relembrar muitas vezes; é normal.
- 7–11 anos: Explique a razão de cada regra. Nesta idade, as crianças têm um sentido de justiça muito apurado e contestam regras que só se aplicam a elas, por isso inclua os adultos sempre que possível.
- 12–16 anos: Negoceiem a lista em conjunto e revejam-na regularmente à medida que crescem. Separe as poucas regras inegociáveis, normalmente ligadas à segurança, das áreas em que podem conquistar mais liberdade.
Quando custa
"Mas há tantas coisas que preciso que eles façam." Há, e pode continuar a pedi-las. A diferença está entre uma regra, que aplica sempre, e um pedido ou uma preferência, que pode pedir com gentileza e deixar passar de vez em quando. Manter a lista de regras curta torna mais fortes as regras que importam.
"Fizemos regras e, ao fim de uma semana, já ninguém as cumpria." As regras costumam esmorecer porque o acompanhamento esmorece. Veja se as aplicou com calma todas as vezes ou só quando já estava irritado. Escolha uma regra para trabalhar durante uma semana e repare em cada vez que é cumprida.
"Eu e o outro progenitor temos regras diferentes." As crianças conseguem aprender que casas diferentes têm regras diferentes, tal como a escola e a casa. O que ajuda é ser claro quanto às regras da sua própria casa e não criticar a outra casa à frente das crianças.
Erros comuns
- Acrescentar uma regra nova sempre que algo corre mal. A maior parte dos problemas pontuais pede uma conversa, não uma regra. Antes de acrescentar uma, pergunte a si próprio se a vai aplicar todas as vezes, sem exceção.
- Regras só para as crianças. "Nada de telemóveis à mesa" enquanto percorre o seu e-mail ensina às crianças que as regras têm a ver com poder, não com valores. Cumpra também as regras da família.
- Nunca reparar quando as regras são cumpridas. Se as regras só aparecem quando são quebradas, parecem armadilhas. Diga aos seus filhos quando acertam.
Numa frase
Poucas regras claras, formuladas como aquilo que se deve fazer e cumpridas com coerência, ensinam mais às crianças do que qualquer lista longa de proibições.
Fontes
- Centers for Disease Control and Prevention (Centros de Controlo e Prevenção de Doenças dos EUA), "Essentials for Parenting Toddlers and Preschoolers" (orientações para pais)
- Kazdin, A. E., "The Kazdin Method for Parenting the Defiant Child" (livro, 2008)
- American Academy of Pediatrics (Academia Americana de Pediatria), "Effective Discipline to Raise Healthy Children" (declaração de política, Pediatrics, 2018)