Senta-se para brincar e, ao fim de um minuto, já tomou conta da brincadeira. "Vamos fazer a garagem aqui." "Quantos carros há? Consegues contá-los?" "Não, a tampa vai para este lado." Parece útil, até educativo. Mas repare no que acontece muitas vezes a seguir: o seu filho desliga, fica aborrecido, ou começa a fazer à sua maneira e a esperar pela instrução seguinte. A brincadeira transformou-se discretamente numa lição, e quem devia estar a liderar passou a ser o ajudante.
Porque é importante
A brincadeira é a forma de as crianças treinarem estar ao comando da própria cabeça. Quando decidem o que acontece a seguir, estão a planear, a resolver problemas, a negociar regras, a lidar com a frustração e a experimentar ideias sem consequências reais. A Academia Americana de Pediatria, num relatório clínico de Kenneth Ginsburg, descreveu a brincadeira livre e conduzida pela criança como essencial para um desenvolvimento saudável e alertou que as atividades fortemente dirigidas por adultos podem afastar a criatividade, a liderança e as competências de grupo que as crianças constroem quando as deixam liderar.
Há também indícios de que a instrução pode estreitar a curiosidade. Numa experiência conhecida de Elizabeth Bonawitz e colegas, as crianças em idade pré-escolar a quem se mostrou exatamente como funcionava uma das funções de um brinquedo novo tenderam a explorar menos e a descobrir menos das suas outras funções do que as crianças deixadas a descobri-lo sozinhas. Ensinar tem o seu lugar. Mas na brincadeira, ouvir qual é a maneira "certa" pode desligar sem ruído a vontade de descobrir.
Quando um pai ou uma mãe segue em vez de dirigir, as crianças vivem também uma experiência rara e poderosa: um adulto que leva as suas ideias a sério. Terapeutas do brincar como Garry Landreth descrevem há muito como ser aceite e seguido na brincadeira ajuda as crianças a sentirem-se capazes e compreendidas. Não precisa de ser terapeuta para oferecer um pouco disso em casa.
Experimente hoje
- Passe-lhe o volante. Comece com um convite aberto: "A que é que vamos brincar?", ou simplesmente sente-se perto dele e espere. Se ele escolher alguma coisa, alinhe, mesmo que não seja o que teria escolhido.
- Descreva em vez de perguntar. Troque as perguntas de teste por um relato em direto: "Estás a levar o carro dos bombeiros rampa acima. Agora vai mesmo depressa." As descrições mostram que está atento sem pôr o seu filho à prova. Perguntas como "De que cor é isto?" transformam a brincadeira num exame.
- Imite o que ele faz. Se ele empilha blocos, empilhe os seus ao lado. Se ele põe o dinossauro a rugir, ponha o seu a rugir também. A imitação diz "a tua ideia merece ser seguida" de uma forma que as palavras não conseguem.
- Deixe as regras ser estranhas. A vaca pode voar, a sopa pode ser feita de pedrinhas, o jogo pode ter regras que mudam a cada jogada. A não ser que alguém se esteja a magoar ou alguma coisa se esteja a partir, a história pertence-lhe.
- Peça instruções. Quando não souber o que fazer, ponha-se nas mãos dele: "O que é que a minha personagem deve fazer agora?" ou "Onde vai esta peça na tua cidade?" As crianças iluminam-se quando um adulto lhes pede orientação.
- Adie o salvamento. Se a torre abana ou o plano falha, espere um momento antes de intervir. Um "Hum, caiu" dito com calma deixa espaço para ele tentar outra vez à sua maneira.
Na prática
A Rita está em casa com o filho de três anos, o Vicente, enquanto a irmã bebé dorme a sesta. O Vicente montou um "café" no chão da cozinha com um tacho, uma colher de pau e um punhado de pinhas do quintal.
O primeiro instinto da Rita é organizar tudo: pratos aqui, ementa ali, talvez umas contas. Contém-se e senta-se no chão. "Estás a mexer as pinhas no tacho", diz ela. O Vicente acena muito sério. "É sopa de pinhas. Está muito quente." "Sopa muito quente", diz a Rita, a soprar a colher que ele lhe passa. "O que faço a seguir, chefe?" Ele pensa. "Tens de pagar com uma meia." Ela tira uma meia e entrega-lha. O Vicente ri-se tanto que tem de se deitar no chão.
Nos quinze minutos seguintes, o Vicente gere o café, inventa um serviço de entregas e cobra-lhe mais duas meias. A Rita não ensina uma única coisa. E, no entanto, o Vicente planeia, conta uma história, usa palavras novas e vive algo que raramente tem numa casa atarefada: um adulto que acha que as ideias dele são as melhores da sala.
Por idades
- 0–2 anos: Siga o foco do bebé. Se ele bate com uma colher, bata também com uma, depois pare e espere que ele volte a bater. Narre baixinho aquilo que ele tenta agarrar. Este vaivém é brincadeira no seu estado mais puro.
- 3–6 anos: O faz de conta é onde liderar mais conta. Deixe-o distribuir os papéis, definir as regras e mudar o enredo. Resista a corrigir "factos" dentro da história; um elefante roxo é permitido.
- 7–11 anos: As crianças desta idade adoram inventar jogos, construir mundos elaborados e criar regras. Peça-lhe que o ensine a jogar e deixe-o gozar o papel de especialista, mesmo que as regras pareçam favorecê-lo.
- 12–16 anos: A brincadeira agora tem outro aspeto: um videojogo, uma manobra de skate, um riff de guitarra, uma experiência na cozinha. Peça-lhe que lhe mostre e depois acompanhe como um verdadeiro principiante. "Ensina-me como fizeste isso" passa-lhe a liderança e mantém aberta uma linha de ligação.
Quando custa
"Mas eu quero que a brincadeira seja educativa." Já é. A brincadeira conduzida pela criança desenvolve a linguagem, o planeamento, a resolução de problemas e o autocontrolo, muitas vezes com mais eficácia do que as atividades estruturadas, porque o seu filho está totalmente envolvido. Pode continuar a ler com ele, a contar degraus e a treinar letras noutras alturas do dia.
"As brincadeiras do meu filho são repetitivas e aborrecidas." A repetição é a forma de as crianças pequenas dominarem as coisas, e pode parecer interminável a um adulto. Tente ter curiosidade pelas pequenas mudanças de cada vez: uma personagem nova, um final diferente. E lembre-se de que não tem de fazer isto durante horas. Dez ou quinze minutos de verdadeiro envolvimento chegam bem.
"O meu filho fica mandão quando lidera." Na brincadeira, não faz mal e é até saudável. As crianças passam a maior parte do dia a ouvir o que devem fazer; mandar durante algum tempo dá-lhes um sítio seguro para se sentirem poderosas. Fora da brincadeira, as regras normais da família continuam a aplicar-se.
Erros comuns
- Tomar conta da brincadeira sem dar por isso. Pode começar com uma única sugestão "útil". Se reparar que é você quem está a decidir o que acontece, devolva-lhe a liderança: "Ups, entusiasmei-me. O que acontece a seguir?"
- Preencher todos os silêncios. Comentar sem parar pode ser esmagador. Deixe algum espaço de silêncio para o seu filho pensar e falar primeiro.
- Entrar só quando lhe convém. Uma brincadeira que só acontece nos seus termos e no seu horário diz à criança que os jogos dela não interessam de verdade. Diga que sim ao convite dele sempre que puder.
Numa frase
Quando segue a liderança do seu filho na brincadeira, dá-lhe espaço para pensar, criar e resolver problemas, e a alegria rara de ter um adulto que leva as suas ideias a sério.
Fontes
- Ginsburg, K. R., e American Academy of Pediatrics (Academia Americana de Pediatria), "The Importance of Play in Promoting Healthy Child Development and Maintaining Strong Parent-Child Bonds" (relatório clínico, Pediatrics, 2007)
- Bonawitz, E., et al., "The Double-Edged Sword of Pedagogy: Instruction Limits Spontaneous Exploration and Discovery" (Cognition, 2011)
- Landreth, G. L., "Play Therapy: The Art of the Relationship" (livro)