O cão do vizinho, o corredor às escuras, a visita de estudo com uma noite fora, o teste de Matemática, a notícia que o seu filho adolescente viu no telemóvel. As crianças preocupam-se, às vezes com coisas que nos parecem minúsculas e às vezes com coisas que são mesmo grandes. A maioria de nós reage de uma de duas formas: tranquiliza ("Não há nada a temer") ou protege ("Não precisas de ir"). As duas parecem gentis. Nenhuma ensina aquilo que a criança mais precisa de aprender: que pode ter medo e, mesmo assim, conseguir.
Porque é importante
O medo é uma parte normal e saudável do crescimento, e muda com a idade. Os bebés começam a desconfiar de estranhos, as crianças em idade pré-escolar têm medo do escuro, dos monstros e dos barulhos fortes, as crianças em idade escolar preocupam-se com magoar-se, falhar ou ficar de fora, e os adolescentes preocupam-se com a forma como os outros os veem e com o mundo à sua volta. Como refere o NHS britânico, muitos destes medos vêm e vão como parte do desenvolvimento normal.
O que mantém os medos vivos é muitas vezes o evitamento. Cada vez que uma criança evita algo assustador, sente alívio, e esse alívio ensina ao cérebro que aquilo era mesmo perigoso. Os pais, compreensivelmente, ajudam a evitar: respondem à mesma pergunta ansiosa vezes sem conta, ou deixam-na faltar à festa. O psicólogo Eli Lebowitz e colegas da Universidade de Yale chamam a estas mudanças acomodação familiar. Num ensaio do seu programa dirigido aos pais, conhecido como SPACE, os pais aprenderam a reduzir gradualmente a acomodação, respondendo ao mesmo tempo com aquilo a que chamam afirmações de apoio, que juntam a aceitação do medo da criança à confiança na capacidade dela para lidar com ele. Na ansiedade infantil, esta abordagem feita só com os pais funcionou mais ou menos tão bem como a terapia cognitivo-comportamental aplicada diretamente à criança.
A mensagem para o dia a dia é animadora. Não precisa de fazer desaparecer os medos. Precisa de mostrar ao seu filho que o medo é compreensível e suportável, que acredita nele, e depois ajudá-lo a dar pequenos passos na direção do que teme.
Experimente hoje
- Leve o medo a sério. Mesmo que a preocupação pareça pequena, é real para o seu filho. Comece pela aceitação, não pela correção: "Isso parece mesmo assustador para ti." Evite o "Não sejas tonto", que ensina o seu filho a deixar de lhe contar as coisas.
- Junte empatia e confiança. Esta frase é o essencial: "Sei que isto assusta muito, e sei que és capaz de lidar com isto." A empatia sozinha pode alimentar o medo; a confiança sozinha pode parecer desvalorização.
- Tenha curiosidade pelos pormenores. Pergunte: "Qual é a parte mais assustadora?" ou "O que é que imaginas que pode acontecer?" A verdadeira preocupação é muitas vezes mais concreta, e mais fácil de tratar, do que parece.
- Planeie pequenos passos corajosos. Divida o medo numa escada, do degrau mais fácil ao mais difícil. Para o medo de cães: ver fotografias de cães, observar cães do outro lado do parque, ficar perto de um cão calmo e com trela, e depois fazer-lhe uma festa. Celebre cada degrau, não só o topo.
- Responda uma vez e depois recue. Quando a mesma pergunta ansiosa surgir pela quinta vez, experimente: "Acho que já sabes o que te vou dizer. O que é que achas?" Tranquilizar sem fim pode manter a preocupação viva.
- Com os mais velhos, experimente a hora das preocupações. Reserve quinze minutos à mesma hora todos os dias para falar ou escrever sobre preocupações. Quando uma preocupação aparecer noutra altura, o seu filho aponta-a e guarda-a: "Vamos deixar essa para a hora das preocupações."
Na prática
A Matilde tem onze anos e a turma vai fazer uma visita de estudo de três dias, com dormidas fora. Há uma semana que faz ao pai, o Luís, as mesmas perguntas à hora de deitar: E se não conseguir dormir? E se me sentir mal? E se ninguém se sentar comigo no autocarro? Todas as noites ele tranquiliza-a; todas as noites as perguntas voltam.
No domingo, experimenta outra coisa. "Faz todo o sentido estares nervosa. É a primeira vez que vais passar noites fora. E eu acho mesmo que és capaz." Depois fica curioso. "Qual é a parte que te parece mais assustadora?" Ela pensa. "A noite. Quando estiverem todos a dormir e eu não." Juntos fazem um plano: um livro e uma lanterna na mala, um bilhete dele no bolso lateral e uma noite de ensaio em casa da prima no sábado. Quando ela pergunta "Mas e se eu chorar?", ele sorri. "Então choras, e vais ficar bem na mesma. O que é que farias?" Ela decide que leria debaixo dos lençóis.
Na manhã da partida, a Matilde continuava nervosa. Mas foi e, quando voltou, contou-lhe que a primeira noite tinha sido difícil e a segunda divertida. O Luís não fez o medo desaparecer. Ajudou-a a descobrir que ela era maior do que ele.
Por idades
- 0–2 anos: Fique perto e calmo quando o bebé encontra algo novo, e deixe-o observar a sua cara. Despedidas calorosas e previsíveis ajudam com as preocupações de separação.
- 3–6 anos: Dê nome ao medo, leve-o a sério e use a brincadeira e as histórias para treinar: um peluche que é corajoso no médico, um jogo com lanterna num quarto escuro. Evite troçar dos medos "tontos".
- 7–11 anos: Construam juntos escadas de passos corajosos e introduza a hora das preocupações. As crianças desta idade podem aprender que pensamentos não são factos: "O que dirias a um amigo que estivesse preocupado com isto?"
- 12–16 anos: Os adolescentes preocupam-se muitas vezes com os testes, as amizades, a aparência e o estado do mundo. Ouça mais do que resolve, partilhe como lida com as suas próprias preocupações e ajude-o a limitar o percorrer de notícias perturbadoras pela noite dentro.
Quando custa
"Não é cruel empurrá-lo para aquilo que o assusta?" O objetivo não é empurrar, mas avançar em passos suficientemente pequenos para que o seu filho os consiga dar, consigo ao lado. Evitar tudo parece mais gentil hoje, mas tende a tornar o mundo mais pequeno e mais assustador.
"Eu próprio sou uma pessoa ansiosa." Muitos pais são, e isso pode tornar difícil assistir ao medo de um filho. Não precisa de o esconder. Deixe o seu filho ver como lida com ele: "Estou nervoso com a minha apresentação, por isso vou ensaiá-la mais uma vez e depois dar uma volta." Se os medos impedirem o seu filho de fazer coisas do dia a dia, como ir à escola, dormir ou estar com os amigos, se durarem semanas ou vierem acompanhados de pânico, fale com o seu médico; a ansiedade nas crianças responde bem ao apoio e ao tratamento.
"O meu filho adolescente diz que a hora das preocupações não serve para nada." Ofereça-a como opção, não como regra. Alguns adolescentes preferem escrever as preocupações nas notas do telemóvel, ou um passeio semanal consigo. O princípio é o mesmo: dar às preocupações uma hora e um lugar para que não tomem conta do dia.
Erros comuns
- Tranquilizar sem fim. Parece amoroso, mas responder à mesma preocupação vezes sem conta pode mantê-la viva. Responda uma vez, com carinho e confiança, e depois devolva-a com gentileza.
- Afastar tudo o que assusta. Faltar à festa, trocar a visita de estudo: cada coisa parece gentil, mas juntas ensinam que o medo tinha razão.
- Desvalorizar o medo. "Não há nada a temer" deixa a criança sozinha com um sentimento em que ninguém acredita. Aceite primeiro, depois encoraje.
Numa frase
Leve a sério o medo do seu filho, mostre que acredita que ele consegue lidar com ele e ajude-o a dar um pequeno passo corajoso de cada vez.
Fontes
- NHS (Serviço Nacional de Saúde britânico), "Anxiety in children" (Health A to Z)
- Lebowitz, E. R., et al., "Parent-Based Treatment as Efficacious as Cognitive-Behavioral Therapy for Childhood Anxiety: A Randomized Noninferiority Study of Supportive Parenting for Anxious Childhood Emotions" (Journal of the American Academy of Child and Adolescent Psychiatry, 2020)
- Huebner, D., "What to Do When You Worry Too Much: A Kid's Guide to Overcoming Anxiety" (livro, 2006)